14.7.10

Noite de Natal em Julho


Entrou e olhou à sua volta. Observou atentamente cada uma delas, mas rapidamente encontrou a que queria.
- Quero esta branca - disse para a empregada.
- Pode tirar, menina.
Retirou-a cuidadosamente do recipiente onde estava com muitas outras e dirigiu-se ao balcão.
- Vou fazer um arranjo bonito, está bem? Ponho uns raminhos verdes, um papel de celofane e ...
- Não, levo-a assim mesmo, tal como está - interrompeu.
A empregada olhou-a, com ar ofendido.
- Assim, sem mais nada?!? - perguntou.
- Sim, ponha só uma fitinha de cetim, pode ser aquela, côr-de-laranja.
- Está bem, mas olhe que esta é muito frágil, tem de a levar com cuidado, senão quebra - avisou.
- Sim, eu tenho cuidado.
Pagou e saiu.
Antes de retomar o caminho, dobrou o braço esquerdo em forma de alcofa e levou-a cuidadosamente, como um bebé recém-nascido. No caminho, foi buscar os filhos à escola. Vinham desalinhados e despenteados, mas com ar bem-disposto.
- Mãe, podemos ir ao parque? - perguntou o mais novo.
- Não, ao parque não, a mãe tinha dito que hoje íamos às compras - disse a menina.
- Compras?!? Eu quero ir ao parque!
Interrompendo a discussão, surgiu da esquina um homem, sujo e mal vestido, com um olhar jovem num rosto envelhecido.
- Minha senhora, dê-me qualquer coisa - pediu.
- Não tenho nada para lhe dar...
- Qualquer coisa, hoje ainda ninguém me deu nada... - insistiu.
Resignada, baixou os olhos e olhou para ela, tão branca, tão delicada. Pegou nela e estendeu-lha.
- Quer esta flor?
O homem ficou estático, depois sorriu.
- Sim, quero sim senhora. É muito bonita...
Antes de lha entregar, desatou a fita de cetim e guardou-a no bolso.
- Tome, cuide bem dela.
- Obrigada, vou cuidar.
Continuaram o seu caminho.
- Mãe, porque é que deste a flor ao senhor? - perguntou o filho.
- Pois, podias ter dado uma moeda - acrescentou a filha.
- Ele não queria moedas... - respondeu.
- Não?!?
- Não, ele queria outra coisa... queria atenção.
- Ahn - respondeu o pequenito, sem perceber nada.
- Claro! - respondeu convictamente a filha, na superioridade dos seus 9 anos.
- E afinal, sempre vamos ao parque?
- Não. Não vamos ao parque nem às compras. Hoje vamos fazer uma coisa especial - respondeu com voz misteriosa.
- O quê?!?
- Vamos festejar a noite de Natal!
- Hoje? Natal? Mas estamos em Julho, mamã - respondeu a filha.
- E depois? Está decidido: esta noite, em nossa casa vai ser Natal!
- Mas não temos árvore de Natal...
- Temos a laranjeira do quintal.
- Pois é!... - o pequeno começava a ficar entusiasmado.
- Sim, mas os enfeites estão em casa da avó - lembrou a menina.
- Arranjamos outros - respondeu a mãe. Meteu a mão no bolso e tirou a fita de cetim.
- E o que vamos comer?
- Eu trato disso. Faço biscoitos e bolo de iogurte - respondeu a filha.
A mãe parou subitamente e olhando para cada um dos filhos, disse sorridente:
- Então, estamos combinados. Tu tratas do jantar, Margarida. E tu, David, tratas das decorações.
- Mamã, mas não temos luzinhas para pôr na árvore de Natal... - disse o menino.
- Mas temos todas as estrelas do céu a brilhar... e temos uma, maior e mais brilhante, que é só nossa e nos vai iluminar toda a noite! - respondeu docemente a mãe.
- Está bem, vamos embora então, temos muito que fazer! - disse a menina, com ar atarefado.
A mãe no meio, um filho de cada lado, de mãos dadas, apressaram o passo e subiram rapidamente a rua, tão rapidamente que, quando chegaram ao cimo, pararam para recuperar o fôlego. Foi nessa altura que o menino, na inocência dos seus 6 anos, olhou para a mãe e disse:
- Mamã, no Natal nasce o menino Jesus, não é? Então, se hoje é Natal em nossa casa, quem é que vai nascer?!?
A mãe sorriu enternecida, olhou para um e para outro e respondeu:
- Hoje nascem muitas coisas... nasce o primeiro bolo de iogurte da Margarida... nasce uma árvore de Natal no quintal... nascem os enfeites inventados pelo David... nascem a lua e as estrelas quando anoitecer... e vamos estar toda a noite acordados!
- Toda a noite?? - perguntou, incrédula, a menina.
- Fixe!!! - disse o pequenito.
- Sim, toda a noite acordados, toda a noite juntos, a comemorar o que nos apetecer, iluminados pela luz branca daquela estrela de que vos falei, a maior e mais brilhante do céu, aquela que é só nossa.


Para a I., estrela branca e brilhante... para a M.R., que sabe que em Julho também pode haver noites de Natal... um beijo no coração.





8.6.10

Os olhos do desejo

De tanto a imaginar, de tanto a desejar... era como se a conhecesse desde sempre.  Bastava-lhe fechar os olhos e esvaziar a cabeça para a ver... o olhar meigo e profundo, as curvas do rosto, a maciez do cabelo desalinhado. Tudo passava a ser incrivelmente familiar, como se sempre estivesse ali, bem ao seu lado... ao adormecer, ao acordar... na cumplicidade dos dias e das noites, nascida dos segredos partilhados, das palavras adivinhadas, dos desejos pressentidos.
De tanto a imaginar... era como se a vida nunca tivesse existido sem ela.
De tanto a desejar... era como se o amor não fizesse sentido sem ela.


O telefone tocou. Abriu os olhos e deixou de a ver. Desoladamente, levantou-se do sofá e foi trabalhar.
Estava frio e chovia.



1.5.10

Era uma vez o amor


Um olhar cruzado, primeiro fugidio, depois mais prolongado e curioso. Uma palavra nova que, voando no ar, se despedaça para renascer num dicionário entretanto inventado. Um calor intenso que confunde o frio e rapidamente se transforma num fogo indomável. Duas mãos que se tocam, uma promessa num sorriso e, no peito, um coração a pular. Uma vida que chama, uma descoberta inesperada, uma certeza inabalável... uma barriga redonda... era uma vez o amor.

17.4.10

As voltas da vida


Não daria por ele, se não tivesse ouvido o ruído de chaves a cair no chão. Voltou-se, fez o gesto delicado de se baixar para ajudar, mas já ele se erguia com elas na mão. Respondeu timidamente ao sorriso que ele esboçou e voltou à posição inicial. Teve de esperar alguns minutos até chegar a sua vez e isso agradou-lhe, gostava de o sentir atrás de si, assim tão perto. A empregada olhava-a agora com um ar impaciente e algo irritado. Pediu o que queria e pagou. Virou-se para sair da fila e não conseguiu deixar de olhá-lo uma vez mais. Sentiu um calor intenso na face.
Passados 15 minutos, estava sentada na cadeira do cinema. Aborrecia-lhe aquela parte inicial da publicidade, mas captou-lhe a atenção aquele anúncio, ou melhor, a frase de conclusão daquele anúncio publicitário: todas as voltas que damos na vida, por mais longas que sejam, terminam ou terminarão um dia num ponto central da nossa existência. Ficou a pensar naquela ideia, principalmente no "ponto central da nossa existência"...
Claro! - pensou, esse ponto central é o último dia, o último instante da nossa vida, aquele que anuncia o fim da viagem e que faz convergir para si a rota de todas as voltas da vida!
Entre reflexões e constatações, o filme começou. De repente, chegou até si um aroma fresco, um perfume que lhe pareceu familiar e sentiu que, sem ter dado conta, alguém estava sentado na cadeira ao seu lado. Sentiu-se irritada... com tantas cadeiras vazias, tinha de se sentar mesmo aqui- pensou. Foi então que ouviu um ruído que o silêncio da sala de cinema ampliou significativamente. Um ruído de chaves a cair no chão. Sentiu um calor intenso na face, respirou fundo e olhou para o lado.

7.4.10

Voar

Se ela fosse um animal seria, com toda a certeza, uma ave. Uma ave bizarra e colorida.
Quem lhe dera ser um animal... quem lhe dera ser uma ave...
Ser ave é muito melhor do que ser pessoa! Poder saltitar entre os ramos das árvores, poder caminhar no solo quando a descoberta se faz na terra... e poder abrir as asas e voar, sempre que a liberdade segreda ao ouvido promessas de aventura!
Hoje apetecia-lhe ser um animal, uma ave.
Mas descobriu que não o era porque quando estava deitada na cama com os braços abertos a fingir de asas e com o tecto do quarto a fazer de céu interminável, o telefone tocou... e o vôo terminou.
As aves voam... e as pessoas pensam que, às vezes, também são capazes de voar, mas... não são!


14.3.10

A caixa



Há duas horas que dava voltas e mais voltas na cama. Virava-se para um lado, fechava os olhos, tentava limpar o pensamento mas, quando dava conta, já estava de olhos abertos e com a cabeça a latejar de ideias. Cansada daquela luta inglória contra a insónia, levantou-se. Estava frio e arrepiou-se. Abriu uma gaveta da cómoda e tirou a caixa. Levou-a na mão e sentou-se na beira da cama. Percorreu com o dedo o bordado da tampa, sentiu a maciez fria do botão brilhante, contornou cada uma das pequenas flores cor-de-rosa. Abriu-a. Como sempre, logo que a destapou, sentiu aquela familiar brisa no rosto, uma pequena tempestade a soltar-se de dentro daquela caixa negra e, aos poucos, viu-as sair, isoladas ou em pequenos grupos, umas mais suavemente, outras mais efusivas. Aos poucos, foram enchendo o quarto, espalharam-se pelo tecto, pelas paredes, amontoaram-se nos móveis, penduraram-se nas cortinas, agarraram-se aos seus cabelos... de um momento para o outro, a caixa estava vazia e à sua volta... palavras, muitas palavras, curtas ou mais longas, verbos, adjectivos e substantivos, palavras doces e palavras amargas, palavras redondas ou ponteagudas, as palavras aprisionadas e agora libertadas aguardavam ansiosamente o seu próximo passo. Olhou em volta e procurou-a. Não era fácil encontrá-la, eram tantas e todas tão sedutoras! Foi guardando na caixa as que não queria, as agressivas, os verbos, as frustradas, as interrogativas, as exclamativas...e aos poucos a quarto foi ficando de novo mais vazio, sobrando aqui e ali algumas palavras expectantes. Espreitou atrás de uma moldura e lá estava ela, a que procurava, a palavra de que precisava naquela noite de insónia. Apanhou as que ainda restavam no quarto, juntou-as, colocou a tampa e voltou a meter a caixa negra das palavras guardadas na gaveta da cómoda. Depois, pegou cuidadosamente na palavra escondida atrás da moldura, aconchegou-a na mão e voltou a deitar-se na cama já fria. Abriu um pouco a mão e olhou para ela, sussurando: MELANCOLIA. Fechou a mão, apagou a luz e tentou adormecer.

9.2.10

A árvore do amor


Perguntaram-me como nasce o amor. Respondi que nasce espontâneamente, sem ser programado, nasce naturalmente de um gesto, de um olhar, de uma palavra com sentido... pensando bem, acho que o amor nasce de uma árvore que existe bem escondida na floresta dos afectos. Uma árvore forte e vigorosa, repleta de frutos, repleta de amor... basta estender a mão e acolher com carinho aquele coração que se soltou na nossa direcção.