Naquele dia, acordou antes do despertador tocar e, estranhamente, apeteceu-lhe logo levantar. Foi à janela e gostou do que viu. A manhã estava fria, mas clara e ensolarada, finalmente o sol vencera a chuva interminável dos dias anteriores! Tomou um longo banho, maquilhou-se, penteou-se, vestiu-se e perfumou-se. No final, demorou-se a olhar para a sua imagem reflectida no grande espelho que tinha no quarto. Já nem se lembrava há quanto tempo não se sentia assim, interessante, bonita, cuidada. Olhou-se com mais atenção e sentiu que faltava qualquer coisa. De repente, lembrou-se. Abriu a gaveta da cómoda e lá estava ela, a velha caixa de madeira, que a acompanhava há tantos anos! Abriu-a e deteve-se a olhar cada uma delas, tocando-as, sentindo-lhes a textura, absorvendo as suas cores. Decidiu-se pela lilás, ficava bem com a camisola preta que vestira e a sua forma sugeria a paixão que a inundava, desde que acordara. Colocou-a no peito, um pouco acima de decote, voltou a olhar para o espelho, sorriu para si própria e pensou: hoje o dia vai ser grande e diferente. Hoje o dia vai ser só meu! Pegou na carteira, fez uma festa no gato e saiu, batendo com a porta de casa.