Um olhar cruzado, primeiro fugidio, depois mais prolongado e curioso. Uma palavra nova que, voando no ar, se despedaça para renascer num dicionário entretanto inventado. Um calor intenso que confunde o frio e rapidamente se transforma num fogo indomável. Duas mãos que se tocam, uma promessa num sorriso e, no peito, um coração a pular. Uma vida que chama, uma descoberta inesperada, uma certeza inabalável... uma barriga redonda... era uma vez o amor.
1.5.10
17.4.10
As voltas da vida
Não daria por ele, se não tivesse ouvido o ruído de chaves a cair no chão. Voltou-se, fez o gesto delicado de se baixar para ajudar, mas já ele se erguia com elas na mão. Respondeu timidamente ao sorriso que ele esboçou e voltou à posição inicial. Teve de esperar alguns minutos até chegar a sua vez e isso agradou-lhe, gostava de o sentir atrás de si, assim tão perto. A empregada olhava-a agora com um ar impaciente e algo irritado. Pediu o que queria e pagou. Virou-se para sair da fila e não conseguiu deixar de olhá-lo uma vez mais. Sentiu um calor intenso na face.
Passados 15 minutos, estava sentada na cadeira do cinema. Aborrecia-lhe aquela parte inicial da publicidade, mas captou-lhe a atenção aquele anúncio, ou melhor, a frase de conclusão daquele anúncio publicitário: todas as voltas que damos na vida, por mais longas que sejam, terminam ou terminarão um dia num ponto central da nossa existência. Ficou a pensar naquela ideia, principalmente no "ponto central da nossa existência"...
Claro! - pensou, esse ponto central é o último dia, o último instante da nossa vida, aquele que anuncia o fim da viagem e que faz convergir para si a rota de todas as voltas da vida!
Entre reflexões e constatações, o filme começou. De repente, chegou até si um aroma fresco, um perfume que lhe pareceu familiar e sentiu que, sem ter dado conta, alguém estava sentado na cadeira ao seu lado. Sentiu-se irritada... com tantas cadeiras vazias, tinha de se sentar mesmo aqui- pensou. Foi então que ouviu um ruído que o silêncio da sala de cinema ampliou significativamente. Um ruído de chaves a cair no chão. Sentiu um calor intenso na face, respirou fundo e olhou para o lado.
Passados 15 minutos, estava sentada na cadeira do cinema. Aborrecia-lhe aquela parte inicial da publicidade, mas captou-lhe a atenção aquele anúncio, ou melhor, a frase de conclusão daquele anúncio publicitário: todas as voltas que damos na vida, por mais longas que sejam, terminam ou terminarão um dia num ponto central da nossa existência. Ficou a pensar naquela ideia, principalmente no "ponto central da nossa existência"...
Claro! - pensou, esse ponto central é o último dia, o último instante da nossa vida, aquele que anuncia o fim da viagem e que faz convergir para si a rota de todas as voltas da vida!
Entre reflexões e constatações, o filme começou. De repente, chegou até si um aroma fresco, um perfume que lhe pareceu familiar e sentiu que, sem ter dado conta, alguém estava sentado na cadeira ao seu lado. Sentiu-se irritada... com tantas cadeiras vazias, tinha de se sentar mesmo aqui- pensou. Foi então que ouviu um ruído que o silêncio da sala de cinema ampliou significativamente. Um ruído de chaves a cair no chão. Sentiu um calor intenso na face, respirou fundo e olhou para o lado.
7.4.10
Voar
Se ela fosse um animal seria, com toda a certeza, uma ave. Uma ave bizarra e colorida.
Quem lhe dera ser um animal... quem lhe dera ser uma ave...
Ser ave é muito melhor do que ser pessoa! Poder saltitar entre os ramos das árvores, poder caminhar no solo quando a descoberta se faz na terra... e poder abrir as asas e voar, sempre que a liberdade segreda ao ouvido promessas de aventura!
Hoje apetecia-lhe ser um animal, uma ave.
Mas descobriu que não o era porque quando estava deitada na cama com os braços abertos a fingir de asas e com o tecto do quarto a fazer de céu interminável, o telefone tocou... e o vôo terminou.
As aves voam... e as pessoas pensam que, às vezes, também são capazes de voar, mas... não são!
14.3.10
A caixa
Há duas horas que dava voltas e mais voltas na cama. Virava-se para um lado, fechava os olhos, tentava limpar o pensamento mas, quando dava conta, já estava de olhos abertos e com a cabeça a latejar de ideias. Cansada daquela luta inglória contra a insónia, levantou-se. Estava frio e arrepiou-se. Abriu uma gaveta da cómoda e tirou a caixa. Levou-a na mão e sentou-se na beira da cama. Percorreu com o dedo o bordado da tampa, sentiu a maciez fria do botão brilhante, contornou cada uma das pequenas flores cor-de-rosa. Abriu-a. Como sempre, logo que a destapou, sentiu aquela familiar brisa no rosto, uma pequena tempestade a soltar-se de dentro daquela caixa negra e, aos poucos, viu-as sair, isoladas ou em pequenos grupos, umas mais suavemente, outras mais efusivas. Aos poucos, foram enchendo o quarto, espalharam-se pelo tecto, pelas paredes, amontoaram-se nos móveis, penduraram-se nas cortinas, agarraram-se aos seus cabelos... de um momento para o outro, a caixa estava vazia e à sua volta... palavras, muitas palavras, curtas ou mais longas, verbos, adjectivos e substantivos, palavras doces e palavras amargas, palavras redondas ou ponteagudas, as palavras aprisionadas e agora libertadas aguardavam ansiosamente o seu próximo passo. Olhou em volta e procurou-a. Não era fácil encontrá-la, eram tantas e todas tão sedutoras! Foi guardando na caixa as que não queria, as agressivas, os verbos, as frustradas, as interrogativas, as exclamativas...e aos poucos a quarto foi ficando de novo mais vazio, sobrando aqui e ali algumas palavras expectantes. Espreitou atrás de uma moldura e lá estava ela, a que procurava, a palavra de que precisava naquela noite de insónia. Apanhou as que ainda restavam no quarto, juntou-as, colocou a tampa e voltou a meter a caixa negra das palavras guardadas na gaveta da cómoda. Depois, pegou cuidadosamente na palavra escondida atrás da moldura, aconchegou-a na mão e voltou a deitar-se na cama já fria. Abriu um pouco a mão e olhou para ela, sussurando: MELANCOLIA. Fechou a mão, apagou a luz e tentou adormecer.
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9.2.10
A árvore do amor
Perguntaram-me como nasce o amor. Respondi que nasce espontâneamente, sem ser programado, nasce naturalmente de um gesto, de um olhar, de uma palavra com sentido... pensando bem, acho que o amor nasce de uma árvore que existe bem escondida na floresta dos afectos. Uma árvore forte e vigorosa, repleta de frutos, repleta de amor... basta estender a mão e acolher com carinho aquele coração que se soltou na nossa direcção.
25.1.10
Flor de Inverno
Há meia hora que não conseguia tirar os olhos dela.
Estava completamente hipnotizado por aquele sorriso quente, por aquele olhar negro e fugidio. Observava os gestos sem querer saber o significado, ouvia as palavras sem querer desvendar o sentido, olhava-a simplesmente e isso deixava-o feliz.
Levantou-se devagar, foi ao seu encontro, parou à sua frente, olhou-a nos olhos e perguntou:
- Como te chamas?
- Porque queres saber?
- De tanto te olhar já te conheço bem, mas falta-me o nome, um nome para te chamar...
Ela fitou-o com um ar cúmplice. Ele sentiu um aroma fresco, lembrou-se do cheiro da relva molhada pela chuva.
- Podes chamar-me o que quiseres.
- Sim? Então vou chamar-te Flor de Inverno.
- Flor de Inverno... flor rara.. flor única... flor efémera?
- Não, simplesmente Flor de Inverno.
5.1.10
Se amanhã chover...
Se amanhã chover, pego em ti ao colo, meto-te debaixo da minha gabardine e vamos descobrir o mundo, saltitando alegremente por entre as gotas de chuva. Se amanhã chover, ficamos em casa, ligamos a música e dançamos o dia inteiro. Se amanhã chover, compramos pincéis e tintas e pintamos o dia de todas as cores do arco-íris. Se amanhã chover, brincamos aos circos, tu equilibrista e eu malabarista. Se amanhã chover, lemos um livro, vemos um filme, fazemos um espectáculo. Se amanhã chover, metes-te devagarinho na cama ao meu lado, de manhã bem cedinho, encostas a cara morna ao meu ombro e dizes bom dia, mamã! Eu procuro o teu ouvido e, num sussuro quase beijo, digo-te de mansinho está a chover, dorme mais um bocadinho.
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