Há duas horas que dava voltas e mais voltas na cama. Virava-se para um lado, fechava os olhos, tentava limpar o pensamento mas, quando dava conta, já estava de olhos abertos e com a cabeça a latejar de ideias. Cansada daquela luta inglória contra a insónia, levantou-se. Estava frio e arrepiou-se. Abriu uma gaveta da cómoda e tirou a caixa. Levou-a na mão e sentou-se na beira da cama. Percorreu com o dedo o bordado da tampa, sentiu a maciez fria do botão brilhante, contornou cada uma das pequenas flores cor-de-rosa. Abriu-a. Como sempre, logo que a destapou, sentiu aquela familiar brisa no rosto, uma pequena tempestade a soltar-se de dentro daquela caixa negra e, aos poucos, viu-as sair, isoladas ou em pequenos grupos, umas mais suavemente, outras mais efusivas. Aos poucos, foram enchendo o quarto, espalharam-se pelo tecto, pelas paredes, amontoaram-se nos móveis, penduraram-se nas cortinas, agarraram-se aos seus cabelos... de um momento para o outro, a caixa estava vazia e à sua volta... palavras, muitas palavras, curtas ou mais longas, verbos, adjectivos e substantivos, palavras doces e palavras amargas, palavras redondas ou ponteagudas, as palavras aprisionadas e agora libertadas aguardavam ansiosamente o seu próximo passo. Olhou em volta e procurou-a. Não era fácil encontrá-la, eram tantas e todas tão sedutoras! Foi guardando na caixa as que não queria, as agressivas, os verbos, as frustradas, as interrogativas, as exclamativas...e aos poucos a quarto foi ficando de novo mais vazio, sobrando aqui e ali algumas palavras expectantes. Espreitou atrás de uma moldura e lá estava ela, a que procurava, a palavra de que precisava naquela noite de insónia. Apanhou as que ainda restavam no quarto, juntou-as, colocou a tampa e voltou a meter a caixa negra das palavras guardadas na gaveta da cómoda. Depois, pegou cuidadosamente na palavra escondida atrás da moldura, aconchegou-a na mão e voltou a deitar-se na cama já fria. Abriu um pouco a mão e olhou para ela, sussurando: MELANCOLIA. Fechou a mão, apagou a luz e tentou adormecer.
14.3.10
9.2.10
A árvore do amor
Perguntaram-me como nasce o amor. Respondi que nasce espontâneamente, sem ser programado, nasce naturalmente de um gesto, de um olhar, de uma palavra com sentido... pensando bem, acho que o amor nasce de uma árvore que existe bem escondida na floresta dos afectos. Uma árvore forte e vigorosa, repleta de frutos, repleta de amor... basta estender a mão e acolher com carinho aquele coração que se soltou na nossa direcção.
25.1.10
Flor de Inverno
Há meia hora que não conseguia tirar os olhos dela.
Estava completamente hipnotizado por aquele sorriso quente, por aquele olhar negro e fugidio. Observava os gestos sem querer saber o significado, ouvia as palavras sem querer desvendar o sentido, olhava-a simplesmente e isso deixava-o feliz.
Levantou-se devagar, foi ao seu encontro, parou à sua frente, olhou-a nos olhos e perguntou:
- Como te chamas?
- Porque queres saber?
- De tanto te olhar já te conheço bem, mas falta-me o nome, um nome para te chamar...
Ela fitou-o com um ar cúmplice. Ele sentiu um aroma fresco, lembrou-se do cheiro da relva molhada pela chuva.
- Podes chamar-me o que quiseres.
- Sim? Então vou chamar-te Flor de Inverno.
- Flor de Inverno... flor rara.. flor única... flor efémera?
- Não, simplesmente Flor de Inverno.
5.1.10
Se amanhã chover...
Se amanhã chover, pego em ti ao colo, meto-te debaixo da minha gabardine e vamos descobrir o mundo, saltitando alegremente por entre as gotas de chuva. Se amanhã chover, ficamos em casa, ligamos a música e dançamos o dia inteiro. Se amanhã chover, compramos pincéis e tintas e pintamos o dia de todas as cores do arco-íris. Se amanhã chover, brincamos aos circos, tu equilibrista e eu malabarista. Se amanhã chover, lemos um livro, vemos um filme, fazemos um espectáculo. Se amanhã chover, metes-te devagarinho na cama ao meu lado, de manhã bem cedinho, encostas a cara morna ao meu ombro e dizes bom dia, mamã! Eu procuro o teu ouvido e, num sussuro quase beijo, digo-te de mansinho está a chover, dorme mais um bocadinho.
23.12.09
Quando um homem decide recordar...
Naquele dia, sem saber muito bem porquê, apeteceu-lhe procurá-lo na gaveta das recordações. Entre folhas amarrotadas, caixas, bilhetes de cinema e postais antigos, perdido entre todos aqueles pedaços de memória, encontrou-o, embrulhado em papel crepe azul desbotado. O tecido parecia envelhecido, mas a imagem mantinha-se apelativa e colorida; aquela pintura de Klimt sempre fora uma das suas preferidas e a paixão daquele Beijo parecia ainda tão real, tão viva... Abriu-o lentamente e fez deslizar entre os dedos as bolsas plásticas feitas para guardar as fotografias. Estava vazio... completamente vazio. Sentou-se na cama e permitiu a si próprio mergulhar uma vez mais naquele mar de recordações. Folheava cada página vazia do álbum e ia recordando todos os momentos, revivendo todas as sensações e emoções, todos aqueles instantes que nenhuma máquina fotográfica conseguiu capturar, que nenhum álbum conseguiu guardar... a melhor máquina fotográfica é o olhar e o melhor álbum de fotografias aquele que existe escondido na memória de um homem que, um dia, decide recordar.
19.12.09
Filha começa com a letra M...
- Música, maresia, madrugada, morango, malmequer, manhã, mistério, maravilhosa, magnífica ... bonita, suave, um colar num pescoço macio, um sorriso de mel ...
- Mãe, essas não valem!
- Menina linda, menina querida, meu amor, meu tesouro, minha flor...
- Mãe, essas não dão! ...
- Está bem, só para terminar mais uma ... adivinha!
- Dá-me uma pista ...
- Filha querida ....
- O meu nome!
- Acertaste ...
- Mãe, essas não valem!
- Menina linda, menina querida, meu amor, meu tesouro, minha flor...
- Mãe, essas não dão! ...
- Está bem, só para terminar mais uma ... adivinha!
- Dá-me uma pista ...
- Filha querida ....
- O meu nome!
- Acertaste ...
7.12.09
A fada de Natal...
Era noite de Natal.
A casa estava quente, perfumada e barulhenta, como acontecia em todas as noites de Natal de que se lembrava. Apesar da animação dos adultos e da agitação dos miúdos, ela sentia uma tristeza sem fim. Sentiu que precisava de se isolar um pouco daquele ambiente festivo, que precisava de uns instantes a sós consigo própria, antes de se deixar levar na noite mais longa do ano.
Foi para o seu quarto certa de que, no seu mundo privado, se sentiria livre para soltar a lágrima que há muito lhe inundava o olhar. Fechou a porta do quarto atrás de si e deixou-se estar às escuras, de olhos fechados, encostada à parede. Quando voltou a abrir os olhos, viu um clarão de luz azulada e cintilante que vinha do lado da janela. Verificou que o candeeiro continuava desligado e perguntou a si própria de onde vinha toda aquela luminosidade. A medo, deu dois passos e, quando espreitou para o interior do quarto, viu um ser pequenino de pé em cima da sua cama, que lhe disse suavemente :
- Não te assustes, por favor ...
- Não te assustes, por favor ...
- Quem és tu? - perguntou, receosa e estupefacta.
- Sou a Fada do Natal. Não me conheces?
- Fada do Natal?!? Não, não conheço. Conheço o Espírito de Natal e o Pai Natal, mas da Fada do Natal nunca ouvi falar ...
- Pois, compreendo ... normalmente as pessoas não me vêem nem me ouvem, mas olha que sou muito importante no natal de todas as pessoas do mundo!
- Ah sim? E porquê? - perguntou, estranhamente tranquila.
- Senta-te aqui na cama, perto de mim, vou contar-te.
Aproximou-se, sentou-se na beira da cama e olhou bem para ela. Era pequenina, tinha cabelos castanhos e olhos muito pretos. Vestia-se com um longo vestido vermelho e um cachecol branco e tinha na mão uma estrela. De facto, tinha um ar bastante natalício ...
- E então? Dizias que és muito importante no Natal ...
- Sim, é verdade. Trabalho o ano inteiro em colaboração com o Pai Natal. Como sabes, com as crianças não é difícil perceber quais são os seus desejos ... Como as cartas que escrevem ao Pai Natal são bem claras, não deixam dúvidas quanto aos seus pedidos. Mas, com os adultos, é um pouco diferente ...
- Pois, na verdade os adultos não costumam escrever cartas ao Pai Natal. Eu, pelo menos, desde os 7 anos que não o faço ...
- Os adultos não escrevem cartas, mas fazem os seus pedidos de um modo muito mais difícil de adivinhar ... é quase como se escrevessem uma carta com o pensamento, mas esta carta nunca segue o seu destino, fica dentro de cada pessoa.
- É, os adultos são mesmo complicados ...
- Pois o meu trabalho é exactamente esse, descobrir o que cada pessoa mais deseja em cada natal, transmiti-lo ao Pai Natal e, juntos, tentarmos realizar esse desejo.
- Que trabalho tão bonito que tu tens! - respondeu, agora já completamente deslumbrada por aquela pequenina fada de voz doce.
- Mas o que hoje me traz aqui não é bem isso ...
- E o que vieste fazer aqui, afinal?
- Vim dizer-te que o teu desejo de natal não pode ser realizado.
- Sim, eu já sabia disso ... - respondeu baixinho, sentindo de novo o nó na garganta.
- Quando naquela noite de tempestade, acordaste a chorar, formulaste o teu pedido, lembras-te?
- Lembro, sim.
- Eu estava atenta e contei ao Pai Natal o teu desejo. Claro que percebemos logo que não iria ser possível ...
- Eu sei, não precisas de explicar, há coisas que não têm retorno ...
- Exactamente, o teu desejo não pode ser realizado, mas tenho uma sugestão a fazer-te...
- Qual é? - perguntou, cheia de expectativa.
- Vai até à janela e espreita lá para fora.
Fez o que a fada lhe indicou, dirigiu-se à janela, abriu-a e olhou para o exterior. Sentiu o ar gelado da noite arrefecer-lhe as faces coradas.
- E agora? O que faço? - perguntou.
- Olha para o céu ...
- Sim, já estou a olhar, está cheio de estrelas, acho que amanhã vai estar sol.
- Estás a vê-la?
- Quem?!?
- Procura bem, olha para o céu com atenção, quando a vires vais perceber.
Olhou atentamente para o céu estrelado. De repente, o seu olhar fixou-se numa estrela que parecia maior do que todas as outras, mais brilhante, mais radiosa.
- Sim, estou a vê-la! -- exclamou alegremente.
- Então olha fixamente para ela e pensa com toda a força no teu desejo.
Seguiu as orientações da fada, olhou para a estrela, abstraindo-se das outras e, aos poucos, começou a distinguir uma forma, parecia um rosto, um rosto familiar, um rosto que amava.
- Sim, estou a vê-lo ... - murmurou.
- Agora volta para dentro, ainda te constipas!
Fechou a janela, voltou a sentar-se na cama, enxugando com a mão as lágrimas que lhe molhavam a cara.
- Percebeste agora o que vim fazer aqui?
- Acho que sim - respondeu com um sorriso tímido nos lábios.
- Vim dizer-te que o Pai Natal não pode oferecer-te o que lhe pediste, da forma como o pediste. Mas lá em cima, está um outro presente de natal ... sempre que o quiseres admirar, basta abrires uma janela e procurares a estrela mais brilhante de todas.
- Obrigada - respondeu.
- Não tens que agradecer. Toma esta estrela, foi feita pelo Pai Natal e vai servir para te lembrar que, mesmo nas noites de tempestade, em que as nuvens carregadas escondem o céu estrelado, a tua estrela continua lá, só tens que esperar que a chuva passe.
Estendeu a mão e pegou na pequena estrela que a fada lhe entregava.
- Tenho de ir embora, tenho outras coisas para tratar ... Junta-te a tua família, vai divertir-te um pouco ... Até qualquer dia!
- Obrigada! Adeus!
Dirigiu-se para a porta do quarto, olhou para trás e acenou-lhe.
Entrou na sala com a pequena estrela guardada na mão, pendurou-a na árvore de natal, abriu as cortinas das janelas e deixou entrar a noite.
- Vamos jantar! Já são horas! - exclamou numa voz alegre.
Sentada à mesa no seu lugar habitual, no meio da confusão de travessas e pratos, crianças e risos, olhou através da janela e viu a sua estrela, a maior e mais brilhante de todas as estrelas do céu. O seu presente de natal, nesse ano, tinha chegado antes da meia-noite!
Esta fada e esta história são um presente feito com todo o carinho do mundo para uma amiga muito especial que, neste Natal, não vai ter o presente que pediu. Na noite mais longa do ano, olha para o céu, querida amiga e procura a estrela maior e mais brilhante de todas.
Feliz Natal, E.!
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