25.1.10

Flor de Inverno


Há meia hora que não conseguia tirar os olhos dela.
Estava completamente hipnotizado por aquele sorriso quente, por aquele olhar negro e fugidio. Observava os gestos sem querer saber o significado, ouvia as palavras sem querer desvendar o sentido, olhava-a simplesmente e isso deixava-o feliz.
Levantou-se devagar, foi ao seu encontro, parou à sua frente, olhou-a nos olhos e perguntou:
- Como te chamas?
- Porque queres saber?
- De tanto te olhar já te conheço bem, mas falta-me o nome, um nome para te chamar...
Ela fitou-o com um ar cúmplice. Ele sentiu um aroma fresco, lembrou-se do cheiro da relva molhada pela chuva.
- Podes chamar-me o que quiseres.
- Sim? Então vou chamar-te Flor de Inverno.
- Flor de Inverno... flor rara.. flor única... flor efémera?
- Não, simplesmente Flor de Inverno.


5.1.10

Se amanhã chover...

Se amanhã chover, pego em ti ao colo, meto-te debaixo da minha gabardine e vamos descobrir o mundo, saltitando alegremente por entre as gotas de chuva. Se amanhã chover, ficamos em casa, ligamos a música e dançamos o dia inteiro. Se amanhã chover, compramos pincéis e tintas e pintamos o dia de todas as cores do arco-íris. Se amanhã chover, brincamos aos circos, tu equilibrista e eu malabarista. Se amanhã chover, lemos um livro, vemos um filme, fazemos um espectáculo. Se amanhã chover,  metes-te devagarinho na cama ao meu lado, de manhã bem cedinho, encostas a cara morna ao meu ombro e dizes bom dia, mamã! Eu procuro o teu ouvido e, num sussuro quase beijo, digo-te de mansinho está a chover, dorme mais um bocadinho.

23.12.09

Quando um homem decide recordar...



Naquele dia, sem saber muito bem porquê, apeteceu-lhe procurá-lo na gaveta das recordações. Entre folhas amarrotadas, caixas, bilhetes de cinema e postais antigos, perdido entre todos aqueles pedaços de memória, encontrou-o, embrulhado em papel crepe azul desbotado. O tecido parecia envelhecido, mas a imagem mantinha-se apelativa e colorida; aquela pintura de Klimt sempre fora uma das suas preferidas e a paixão daquele Beijo parecia ainda tão real, tão viva... Abriu-o lentamente e fez deslizar entre os dedos as bolsas plásticas feitas para guardar as fotografias. Estava vazio... completamente vazio. Sentou-se na cama e permitiu a si próprio mergulhar uma vez mais naquele mar de recordações. Folheava cada página vazia do álbum e ia recordando todos os momentos, revivendo todas as sensações e emoções, todos aqueles instantes que nenhuma máquina fotográfica conseguiu capturar, que nenhum álbum conseguiu guardar... a melhor máquina fotográfica é o olhar e o melhor álbum de fotografias aquele que existe escondido na memória de um homem que, um dia, decide recordar.


19.12.09

Filha começa com a letra M...


- Mãe, diz-me palavras começadas por m!
- Música, maresia, madrugada, morango, malmequer, manhã, mistério, maravilhosa, magnífica ... bonita, suave, um colar num pescoço macio, um sorriso de mel ...
- Mãe, essas não valem!
- Menina linda, menina querida, meu amor, meu tesouro, minha flor...
- Mãe, essas não dão! ...
- Está bem, só para terminar mais uma ... adivinha!
- Dá-me uma pista ...
- Filha querida ....
- O meu nome!
- Acertaste ...

7.12.09

A fada de Natal...

Era noite de Natal.
A casa estava quente, perfumada e barulhenta, como acontecia em todas as noites de Natal de que se lembrava. Apesar da animação dos adultos e da agitação dos miúdos, ela sentia uma tristeza sem fim. Sentiu que precisava de se isolar um pouco daquele ambiente festivo, que precisava de uns instantes a sós consigo própria, antes de se deixar levar na noite mais longa do ano.
Foi para o seu quarto certa de que, no seu mundo privado, se sentiria livre para soltar a lágrima que há muito lhe inundava o olhar. Fechou a porta do quarto atrás de si e deixou-se estar às escuras, de olhos fechados, encostada à parede. Quando voltou a abrir os olhos, viu um clarão de luz azulada e cintilante que vinha do lado da janela. Verificou que o candeeiro continuava desligado e perguntou a si própria de onde vinha toda aquela luminosidade. A medo, deu dois passos e, quando espreitou para o interior do quarto, viu um ser pequenino de pé em cima da sua cama, que lhe disse suavemente :


- Não te assustes, por favor ...
- Quem és tu? - perguntou, receosa e estupefacta.
- Sou a Fada do Natal. Não me conheces?
- Fada do Natal?!? Não, não conheço. Conheço o Espírito de Natal e o Pai Natal, mas da Fada do Natal nunca ouvi falar ...
- Pois, compreendo ... normalmente as pessoas não me vêem nem me ouvem, mas olha que sou muito importante no natal de todas as pessoas do mundo!
- Ah sim? E porquê? - perguntou, estranhamente tranquila.
- Senta-te aqui na cama, perto de mim, vou contar-te.

Aproximou-se, sentou-se na beira da cama e olhou bem para ela. Era pequenina, tinha cabelos castanhos e olhos muito pretos. Vestia-se com um longo vestido vermelho e um cachecol branco e tinha na mão uma estrela. De facto, tinha um ar bastante natalício ...
- E então? Dizias que és muito importante no Natal ...
- Sim, é verdade. Trabalho o ano inteiro em colaboração com o Pai Natal. Como sabes, com as crianças não é difícil perceber quais são os seus desejos ... Como as cartas que escrevem ao Pai Natal são bem claras, não deixam dúvidas quanto aos seus pedidos. Mas, com os adultos, é um pouco diferente ...
- Pois, na verdade os adultos não costumam escrever cartas ao Pai Natal. Eu, pelo menos, desde os 7 anos que não o faço ...
- Os adultos não escrevem cartas, mas fazem os seus pedidos de um modo muito mais difícil de adivinhar ... é quase como se escrevessem uma carta com o pensamento, mas esta carta nunca segue o seu destino, fica dentro de cada pessoa.
- É, os adultos são mesmo complicados ...
- Pois o meu trabalho é exactamente esse, descobrir o que cada pessoa mais deseja em cada natal, transmiti-lo ao Pai Natal e, juntos, tentarmos realizar esse desejo.
- Que trabalho tão bonito que tu tens! - respondeu, agora já completamente deslumbrada por aquela pequenina fada de voz doce.
- Mas o que hoje me traz aqui não é bem isso ...
- E o que vieste fazer aqui, afinal?
- Vim dizer-te que o teu desejo de natal não pode ser realizado.
- Sim, eu já sabia disso ... - respondeu baixinho, sentindo de novo o nó na garganta.
- Quando naquela noite de tempestade, acordaste a chorar, formulaste o teu pedido, lembras-te?
- Lembro, sim.
- Eu estava atenta e contei ao Pai Natal o teu desejo. Claro que percebemos logo que não iria ser possível ...
- Eu sei, não precisas de explicar, há coisas que não têm retorno ...
- Exactamente, o teu desejo não pode ser realizado, mas tenho uma sugestão a fazer-te...
- Qual é? - perguntou, cheia de expectativa.
- Vai até à janela e espreita lá para fora.
Fez o que a fada lhe indicou, dirigiu-se à janela, abriu-a e olhou para o exterior. Sentiu o ar gelado da noite arrefecer-lhe as faces coradas.
- E agora? O que faço? - perguntou.
- Olha para o céu ...
- Sim, já estou a olhar, está cheio de estrelas, acho que amanhã vai estar sol.
- Estás a vê-la?
- Quem?!?
- Procura bem, olha para o céu com atenção, quando a vires vais perceber.
Olhou atentamente para o céu estrelado. De repente, o seu olhar fixou-se numa estrela que parecia maior do que todas as outras, mais brilhante, mais radiosa.
- Sim, estou a vê-la! -- exclamou alegremente.
- Então olha fixamente para ela e pensa com toda a força no teu desejo.
Seguiu as orientações da fada, olhou para a estrela, abstraindo-se das outras e, aos poucos, começou a distinguir uma forma, parecia um rosto, um rosto familiar, um rosto que amava.
- Sim, estou a vê-lo ... - murmurou.
- Agora volta para dentro, ainda te constipas!
Fechou a janela, voltou a sentar-se na cama, enxugando com a mão as lágrimas que lhe molhavam a cara.
- Percebeste agora o que vim fazer aqui?
- Acho que sim - respondeu com um sorriso tímido nos lábios.
- Vim dizer-te que o Pai Natal não pode oferecer-te o que lhe pediste, da forma como o pediste. Mas lá em cima, está um outro presente de natal ... sempre que o quiseres admirar, basta abrires uma janela e procurares a estrela mais brilhante de todas.
- Obrigada - respondeu.
- Não tens que agradecer. Toma esta estrela, foi feita pelo Pai Natal e vai servir para te lembrar que, mesmo nas noites de tempestade, em que as nuvens carregadas escondem o céu estrelado, a tua estrela continua lá, só tens que esperar que a chuva passe.
Estendeu a mão e pegou na pequena estrela que a fada lhe entregava.
- Tenho de ir embora, tenho outras coisas para tratar ... Junta-te a tua família, vai divertir-te um pouco ... Até qualquer dia!
- Obrigada! Adeus!
Dirigiu-se para a porta do quarto, olhou para trás e acenou-lhe.
Entrou na sala com a pequena estrela guardada na mão, pendurou-a na árvore de natal, abriu as cortinas das janelas e deixou entrar a noite.
- Vamos jantar! Já são horas! - exclamou numa voz alegre.
Sentada à mesa no seu lugar habitual, no meio da confusão de travessas e pratos, crianças e risos, olhou através da janela e viu a sua estrela, a maior e mais brilhante de todas as estrelas do céu. O seu presente de natal, nesse ano, tinha chegado antes da meia-noite!

Esta fada e esta história são um presente feito com todo o carinho do mundo para uma amiga muito especial que, neste Natal, não vai ter o presente que pediu. Na noite mais longa do ano, olha para o céu, querida amiga e procura a estrela maior e mais brilhante de todas.
Feliz Natal, E.!

18.11.09

O bosque


A estrada, estreita e poeirenta, começava a parecer-lhe interminável. Sentia-se impaciente. Fez a curva apertada à direita e assustou-se, quase não conseguia dominar o carro. Percebeu que ia depressa demais naquela estrada secundária, abrandou, antes que a pressa lhe matasse os planos. Na sua cabeça, a dúvida não lhe dava tréguas - será que vou conseguir encontrá-lo? Avistou um caminho à direita. Desviou lentamente da estrada e, ao longe, pareceu-lhe ver um pequeno edifício antigo. Era a escola! O seu ponto de referência ali estava, a mesma escola de que se lembrava, mas agora sem desenhos nas janelas, sem crianças, sem vida, a mesma escola, mas abandonada e quase em ruínas. Parou o carro, saiu e olhou em volta. Decidiu-se a ir pela esquerda, confiando perigosamente no seu sentido de orientação. Foi andando, olhando para um lado e para o outro, procurando ansiosamente aqueles sinais que guardava na memória. Caminhou uns minutos, amedrontada, mas decidida. De repente, ergueu-se à sua frente o barracão de madeira, tal e qual como se lembrava dele. Devia estar prestes a chegar. Passou o barracão e um pouco mais à frente, lá estava ele: o bosque! Sentiu no ar o aroma a madeira e a terra que em vão procurara, ao longo dos anos. Voltaram-lhe à cabeça as memórias de uma infância longínqua,  do seu esconderijo secreto, da primeira carta de amor que ali escreveu, das construções com pedras e folhas, das guloseimas escondidas que ali comia deliciada. Avançou mais um pouco e olhou demoradamente para cada uma delas: quatro árvores grandes e imponentes que, entre si, formavam um círculo perfeito. Lembrou-se de como no verão os ramos e as folhas de umas se misturavam com os das outras, criando uma cabana de sombra. Aproximou-se de uma e procurou com os olhos e com as mãos. Encontrou, finalmente: gravado no tronco, lá estava o número 9; procurou em cada uma das outras árvores e encontrou os restantes : dois círculos e um 2. Sentiu-se feliz, sorriu e gritou: 2009! No Outono de 1989, tinham-lhe roubado o seu bosque. Na última vez que lá foi, consumida pela revolta de, aos 10 anos de idade, não lhe reconhecerem o direito de escolha, tinha gravado furiosamente estes algarismos, um em cada árvore, simbolizando este conjunto a promessa de um dia voltar ao seu bosque. Olhou para o relógio: eram 11 horas da manhã do dia 18 de Outubro de 2009. A promessa estava cumprida! Sentou-se bem no centro do círculo formado pelas quatro árvores, no centro do seu bosque e soltou uma enorme gargalhada.

11.11.09

Hoje o dia vai ser só meu...



Naquele dia, acordou antes do despertador tocar e, estranhamente, apeteceu-lhe logo levantar. Foi à janela e gostou do que viu. A manhã estava fria, mas clara e ensolarada, finalmente o sol vencera a chuva interminável dos dias anteriores! Tomou um longo banho,  maquilhou-se, penteou-se, vestiu-se e perfumou-se. No final, demorou-se a olhar para a sua imagem reflectida no grande espelho que tinha no quarto. Já nem se lembrava há quanto tempo não se sentia assim, interessante, bonita, cuidada. Olhou-se com mais atenção e sentiu que faltava qualquer coisa. De repente, lembrou-se. Abriu a gaveta da cómoda e lá estava ela, a velha caixa de madeira, que a acompanhava há tantos anos! Abriu-a e deteve-se a olhar cada uma delas, tocando-as, sentindo-lhes a textura, absorvendo as suas cores. Decidiu-se pela lilás, ficava bem com a camisola preta que vestira e a sua forma sugeria a paixão que a inundava, desde que acordara. Colocou-a no peito, um pouco acima de decote, voltou a olhar para o espelho, sorriu para si própria e pensou: hoje o dia vai ser grande e diferente. Hoje o dia vai ser só meu! Pegou na carteira, fez uma festa no gato e saiu, batendo com a porta de casa.